"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que do inferno não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
Ítalo Calvino
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quinta-feira, 9 de julho de 2009

O segundo sexo está sexagenário




"Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher."
Pitágoras (epígrafe de O Segundo Sexo)


"Eles bem o sabem, elas mal
duvidam. Recusar ser o Outro, recusar a cumplicidade com o
homem seria para elas renunciar a todas as vantagens que a
aliança com a casta superior pode conferir-lhes. O homem suserano
protegerá materialmente a mulher vassala e se encarregará
de lhe justificar a existência: com o risco econômico, ela esquiva
o risco metafísico de uma liberdade que deve inventar seus fins
sem auxílios. Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indivíduo
de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética,
há também a tentação de fugir de sua liberdade e de constituir-se
em coisa. É um caminho nefasto porque passivo, alienado, perdido,
e então esse indivíduo é presa de vontades estranhas, cortado
de sua transcendência, frustrado de todo valor. Mas é um
caminho fácil: evitam-se com ele a angústia e a tensão da existência
autenticamente assumida. O homem que constitui a mulher
como um Outro encontrará, nela, profundas cumplicidades. Assim,
a mulher não se reivindica como sujeito, porque não possui os
meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário que
a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele, e porque,
muitas vezes, se compraz no seu papel de Outro."
O Segundo Sexo vol.1 -
Simone de Beauvoir

terça-feira, 30 de junho de 2009

Pina

"Não me interesso em como as pessoas se movem, mas no que faz elas se moverem"

Pina Bausch (27/07/1940 - 30/06/2009)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Esperemos


Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou oficinas
- há fábricas de dias que virão -
exitem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos e preciosos
que de repente chegam à porta
para presentear-nos com uma laranja
ou de repente assassinar-nos de imediato.
(Pablo Neruda -Últimos Poemas)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Debussy

Para cá, para lá . . . Para cá, para lá . . . Um novelozinho de linha . . . Para cá, para lá . . . Para cá, para lá . . . Oscila no ar pela mão de uma criança (Vem e vai . . .) Que delicadamente e quase a adormecer o balança — Psio . . . — Para cá, para lá . . . Para cá e . . . — O novelozinho caiu.
(Manoel Bandeira)

domingo, 9 de novembro de 2008

Vento


Se a gente jogar uma pedra no vento
Ele nem olha para trás.
Se a gente atacar o vento com enxada
Ele nem sai sangue da bunda.
Ele não dói nada.
Vento não tem tripa.
Se a gente enfiar uma faca no vento
Ele nem faz ui.
A gente estudou no Colégio que o vento
é o ar em movimento.
E que o ar em movimento é vento.
Eu quis uma vez implantar uma costela
no vento.
A costela não parava nem.
Hoje eu tasquei uma pedra no organismo
do vento.
Depois me ensinaram que vento não tem
organismo.
Fiquei estudado.
Manoel de Barros

sábado, 4 de outubro de 2008

Ou eu ou eles... pequena canção para as eleições municipais

Get out of town
Before it´s too late my love.
Get out of town
be good to me please

Why wish me harm
Why not retire to a farm
and be contented to charm
the birds off the trees

Just desappeare
I care for you much, too much
and when you´re near, close to me dear
We touch too much

The thrill when we meet is so bittersweet
that darling, ist´s getting me down
so on your mark get set
get out of town

domingo, 14 de setembro de 2008

Hai-kai de inverno?


36 graus sem vento,
com vento,
inverno invento do global esquecimento.

sábado, 13 de setembro de 2008

Singular




O corpo arrepiado pula na cama estranhando a falta de beijos.
A língua passeia pelo céu da boca que não veio.
Gozo intransitivo na primeira pessoa do eu-singular.
Estranha festa, absurdamente silenciosa.
(Ivana Arruda Leite)

sábado, 6 de setembro de 2008

Sobre o casamento


"Se os esposos não vivessem juntos, haveria mais matrimônios felizes"
Friederich Nietzsche

Russellniana 2 - Sobre o tempo


"O tempo que você gosta de perder,
não é tempo perdido."
Bertrand Russell

Mais Simples



É sobre-humano amar

'cê sabe muito bem

É sobre-humano amar, sentir, doer, gozar

Ser feliz

Vê que sou eu quem te diz

Não fique triste assim

É soberano e está em ti querer até

Muito mais

A vida leva e traz

A vida faz e refaz

Será que quer achar

Sua expressão mais simples?

Mas deixa tudo e me chama

Eu gosto de te ter

Como se já não fosse a coisa mais humana

Esquecer

É sobre-humano viver

E como não seria

Sinto que fiz esta canção em parceria

Com você

A vida leva e traz

A vida faz e refaz

Será que quer achar

Sua expressão mais simples?

(José Miguel Wisnik)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Russellniana 1 - sobre a morte (ou: das melhores do papai)

"Acredito que quando eu morrer, eu me putrefarei e nada em mim sobreviverá. Não sou jovem, e amo a vida. Mas desdenharei os calafrios de terror ao pensamento da aniquilação total. A felicidade não é, absolutamente, menor e menos verdadeira apenas porque deve, necessariamente, chegar a um fim, e tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos." (Bertrand Russell, 1965)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O que o vento não levou


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento.

Mário Quintana

Aniversário


Fruta Boa
(Milton Nascimento e Fernando Brant)

É maduro o nosso amor, não moderno

Fruto de alegria e dor, céu, inferno
Tão vivido o nosso amor, convivência
De felicidade e paciência
É tão bom...

O nosso amor comum é diverso
Divertido mesmo até, paraíso
Para quem conhece bem
Os caminhos
Do amor seu vai e vem
Quem conhece

Saboroso é o amor, fruta boa
Coração é o quintal da pessoa
É gostoso o nosso amor
Renovado é o nosso amor
Saboroso é o amor madurado de carinho

É pequeno o nosso amor, tão diário
É imenso o nosso amor, não eterno
É brinquedo o nosso amor, é mistério
Coisa séria mais feliz dessa vida

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A morte de Pã



Quando aquele que o beijo infiel traíra no Horto,
Desfaleceu na cruz, das montanhas ao mar
Gemeu, com grande pranto e feio soluçar,
Uma voz que dizia: "- o Grande Pã é morto!...

"Aquele deleitoso, almo viver absorto
"No amor da natureza augusta e familiar,
"O ledo rito antigo, outrem veio mudar
"Em doutrina de amargo e rudo desconforto.

"Faunos , morrei! Morrei, Dríades e Napéias!
"Oréades gentis que a flauta do Egipã
"Congraçava na relva em rondas e coréias,

"Morrei! Apague o vento os tenuíssimos laivos
"Dos ágeis pés sutis... Bosques, desencantai-vos...
"Fontes do ermo, chorai que é morto o grande Pã!...

Manuel Bandeira

Afogado nos Andes 1



No ar rarefeito como a vida
vai a vida do índio formiga.

A esta altura, o oxigênio raro
faz pelo avesso outro afogado.

Quem se afoga nele ou por falta
dele, é igual a boca angustiada:

os afogados submarinos têm os gestos dos sobreandinos,
sempre que possam expressar, com a boca ou as mãos, a falta de ar

de onde demorar não se pode:
onde a vista é de quem foge.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Educação pela Pedra


Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta;
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.


Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Liberdade

Ai que prazer

não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!

(...)

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Fernando Pessoa