"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que do inferno não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
Ítalo Calvino
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quinta-feira, 9 de julho de 2009

O segundo sexo está sexagenário




"Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher."
Pitágoras (epígrafe de O Segundo Sexo)


"Eles bem o sabem, elas mal
duvidam. Recusar ser o Outro, recusar a cumplicidade com o
homem seria para elas renunciar a todas as vantagens que a
aliança com a casta superior pode conferir-lhes. O homem suserano
protegerá materialmente a mulher vassala e se encarregará
de lhe justificar a existência: com o risco econômico, ela esquiva
o risco metafísico de uma liberdade que deve inventar seus fins
sem auxílios. Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indivíduo
de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética,
há também a tentação de fugir de sua liberdade e de constituir-se
em coisa. É um caminho nefasto porque passivo, alienado, perdido,
e então esse indivíduo é presa de vontades estranhas, cortado
de sua transcendência, frustrado de todo valor. Mas é um
caminho fácil: evitam-se com ele a angústia e a tensão da existência
autenticamente assumida. O homem que constitui a mulher
como um Outro encontrará, nela, profundas cumplicidades. Assim,
a mulher não se reivindica como sujeito, porque não possui os
meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário que
a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele, e porque,
muitas vezes, se compraz no seu papel de Outro."
O Segundo Sexo vol.1 -
Simone de Beauvoir

sábado, 13 de setembro de 2008

Raposa Serra do Sol

As terras de índios são 43% ao todo, porém, até 30, 40 anos atrás, eram 100%. E o que acontece hoje com os 57% que não são terras de índios? São ocupados por uma população muito pequena, algo em torno de 1 milhão de pessoas. O que é isso? É latifúndio. Sabe quantos são os arrozeiros que exploram terras da reserva? Seis. Não há dúvida de que o que se quer são poucos brancos, com muita terra. Outra inverdade: as terras da reserva são dos índios. Não são. Eles não têm a propriedade, mas o usufruto. Porque as terras são da União. E a União tem o dever constitucional de zelar por elas. Já os arrozeiros querem a propriedade. As notícias que temos são as de que, desde a homologação, produtores rurais que estão fora da lei já atacaram quatro comunidades indígenas, incendiaram 34 casas, arrebentaram postos de saúde, espancaram e balearam índios.

Diz-se que 49,5% dos 225 povos indígenas do Brasil são constituídos, cada um, de no máximo 500 indivíduos. Vem daí a idéia de que é pouca gente para muita terra?

Mas no Estado de Roraima há meia dúzia de arrozeiros fazendo esse estardalhaço todo. Meia dúzia! Também não é pouca gente? Como é que comunidades tão pequenas podem ameaçar o Brasil? Só se forem criar Estados de Mônaco. Utilizar o índio como modelo de latifúndio, como se tem feito, é um prodígio de má-fé.




Vejam na íntegra a entrevista do Viveiros sobre a crise na reserva:


http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup159735,0.htm

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sobre o canibalismo

"Poderíamos igualmente perguntar por que os cristãos europeus não desenvolveram o canibalismo ritual dos figianos. Afinal, eles chegaram tão perto."
Marshall Sahlins

A invenção da tradição

Sendo a Grã-Bretanha a pátria da "invenção da tradição", é desnecessário explicar aqui a expressão. Todos sabem, igualmente, como os antropólogos apressaram-se em adaptar tal idéia à nostalgia cultural hoje corrente entre os povos outrora coloniais. Pelo Terceiro e Quarto Mundo afora, as pessoas andam a proclamar o valor de seus costumes tradicionais (tal como elas os concebem). Infelizmente, uma certa atmosfera livresca de inautenticidade paira sobre esse moderno movimento pró-cultural. O rótulo acadêmico "invenção" já sugere artifício, e a literatura antropológica transmite, com demasiada freqüência, a impressão de um passado meio falsificado, improvisado ara fins políticos, que provavelmnte deve mais a forças imperialistas que a fontes indígenas. A título de antídoto possível, chamo a atenção para um caso notável de invenção da tradição, cuja respeitabilidade nenhum acadêmico do Ocidente será tentado a negar. Pois deu-se que, nos séculos XV e XVI, um punhado de intelectuais e artistas nativos europeusreuniu-se e pôs-se a inventar suas tradições, e a si mesmos, tentando revitalizar o saber de uma antiga cultura que consideravam ter sido obra de seus ancestrais, mas que não compreendiam plenamente, pois essa cultura estava perdida há muitos séculos, e suas línguas (latim e grego) andavam corrompidas ou esquecidas. Muitos séculos antes, igualmente, esses europeus tinham-se convertido ao Cristianismo; mas isso não os impedia agora de clamar pela restauração de sua herança pagã: voltariam a praticar as virtudes clássicas, chegariam mesmo a invocar os deuses pagãos. Seja lá como for (e como foi), nessas circunstâncias - as de uma enorme distância a separar esses intelectuais aculturados de um passado efetivamente irrecuperável -, nessas circunstâncias a nostalgia já não era o que costumava ser. Os textos e monumentos que esses intelectuais construíram eram, o mais das vezes, meros simulacros servis de modelos clássicos. Criaram assim uma tradição consciente de cânones fixos e essencializados; escreveram história no estilo de Lívio, poesia em um latim amaneirado, tragédia ao modo de Sêneca e comédia conforme Terêncio; decoraram igrejas cristãs com fachadas de templos clássicos e seguiram, de modo geral, os preceitos da arquitetura romana estabelecidos por Vitrúvio - sem se darem conta de que esses preceitos eram gregos. Tudo isso veio a ser chamado, na história européia, de Renascimento, pois deu à luz a "civilização moderna". O que mais se pode dizer disso, senão que algumas pessoas sempre tiram a sorte grande histórica? Quando são os europeus que inventam suas tradições - com os turcos à suas portas - trata-se de um renascimento cultural genuíno, o início de um futuro de progresso. Quando outros povos o fazem, é um signo de decadência cultural, uma recuperação factícia, que não pode produzir senão simulacros de um passado morto. Por outro lado, a lição histórica poderia ser a de que nem tudo está perdido (Marshal Sahlins. Esperando Foucault Ainda)